20/07/2020 às 10h08min - Atualizada em 20/07/2020 às 10h08min

Quais histórias contam monumentos de Cuiabá?

rcpress
O Livre
(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)
Quem anda pelo centro de Cuiabá, provavelmente, já se deparou com um monumento em que três figuras estão retratadas: um bandeirante, um índio e um negro. A homenagem foi instalada na Avenida Coronel Escolástico, em comemoração aos 250 anos da Capital.
 

O bandeirante é Pascoal Moreira Cabral, considerado o fundador da cidade. Já o índio e o negro representam uma “memória genocida” de um colonizador que chegou para aprisionar e escravizar outros povos. Será?

 

A pergunta “quem estamos homenageando?” passou a ecoar pelo mundo em meados de maio, quando o norte-americano George Floyd – um homem negro – foi morto nos Estados Unidos por um policial, durante uma abordagem.

Dali em diante, os protestos que ocorreram em várias cidades do planeta incluíram a destruição de estátuas e monumentos históricos. Geralmente, imagens de colonizadores e escravocatas.

Mas para o historiador Suelme Fernandes, antes de sair derrubando imagens por aí, é preciso pensar: em que época o homenageado viveu? E quando se deu a instalação desse monumento? O que mudou para o momento em que vivemos agora?

“Julgar acontecimentos históricos fora de seu contexto é um anacronismo. Existia outra mentalidade na época. São julgamentos de valores diferentes para cada uma dessas épocas”, ele explica.

Alguns estudiosos defendem, por exemplo, que a história é feita de fatos do presente e, por isso, provisória. Isso quer dizer que ela pode ser reescrita sofrendo acréscimos, revisões e correções.

 

Cada grupo social, entretanto, faz a própria leitura dos fatos. Para Antonieta Luísa Costa, pedagoga e especialista em História e Escravidão pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a pauta é atual e precisa ser discutida.

Quem representa o povo brasileiro? Uma estátua colocada há 150 anos representa quem? São heróis que não nos representam, que massacraram, agrediram e exterminaram o nosso e outros povos”, ela afirma.

Então, o monumento de Cuiabá é questionável?

A “memória genocida” na imagem do negro e do índio que acompanham Pascoal Moreira Cabral é uma análise de Suelme.

“A imagem representa um pódio da civilização: um índio de perfil – desproporcional em relação aos outros grupos; a figura que representa o negro está virada para trás e o bandeirante acima do dois“, ele explica.

Por conta disso, para o historiador, embora o índio e o negro estejam retratados – o que para alguns pode indicar um “reconhecimento” de sua participação na construção da cidade e do povo – o monumento passa uma imagem sombria.

(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

“Ele [Pascoal] chega aqui preando índio, matando os Paiaguás que foram completamente exterminados por esses bandeirantes. É um monumento que – apesar da figura do índio e do negro – traz essa memória genocida”.

 

Já Antonieta vai além. Analisando as manifestações e movimentos inflamados pela morte de George Floyd, diz ser necessário que tais fatos nos levem a uma reflexão profunda.

O erro acontece, mas não podermos permanecer nele. Há determinado naquele monumento o sentido de superioridade. Isso não significa que tenhamos que perpetuar esse pensamento. Quem se reconhece na figura do bandeirante?“.

Voltando no tempo

Foi entre o século I e II que, segundo Suelme, se iniciou o hábito de homenagear pessoas públicas ou momentos históricos com estátuas.

À época, o Império Romano começou a erguer monumentos para exaltar feitos militares e seus responsáveis. É exemplo desse momento a instalação da estátua que homenageia o imperador Augusto César.

Atualmente, o obra está exposta no Museu do Louvre, em Paris.

Esses monumentos serviam de propaganda do poder romano perante os povos dominados e diante do povo do império“, explica Suelme. Também são exemplos as construções de arcos e obeliscos.

Todavia, de acordo com o historiador, não é novidade estátuas e monumentos virarem alvos de protestos, como os casos após a morte de Floyd. No século XVI, avessos a adoração de imagens sacras, protestantes destruíram santos católicos.

O movimento ficou conhecido como iconoclastia.

 

(Reprodução)

Já em 1776, moradores dos Estados Unidos – logo após a independência do país -, foram às ruas para destruir a estátua do rei George III. O monumento foi derrubado e transformado em balas de mosquete.

 

Na Alemanha do pós 2ª Guerra Mundial, símbolos e homenagens a nazistas também foram derrubados e alterados. A mudança inclui nomes de ruas.

Em Mato Grosso, os nomes de duas escolas estaduais Castelo Branco e Senador Filinto Müller chegaram a ser alterados por força de decreto, em 2017, mas a mudança acabou revogada logo em seguida. As unidades ficam em Luciara e Arenápolis.

A mudança foi feita com base na Lei Estadual 10.343, sancionada em 2015, que proíbe homenagens a pessoas que tenham cometido tortura, exploração de trabalho escravo, maus tratos a animais ou violação de direitos humanos.

As duas figuras históricas estão ligadas ao período da ditadura militar no Brasil.

 

 

 
 
Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Precisa de ajuda? fale conosco pelo Whatsapp